Publicações de Sebastião Nery

UM PATRIOTA INJUSTIÇADO

RIO – A mãe era índia da tribo Tupi, tinha nome bonito, Ângela Álvares, e “possuía fartos haveres”. O pai, ninguém nunca soube. Certamente um padre. “Caboclinho mestiço, mulato, não tinha boa presença e possuía feições grosseiras”. Educado pelos jesuítas de Olinda, “dominava outras línguas. Culto, ambicioso, inteligente, prospero senhor de engenho, possuía três grandes engenhos cobertos de cana de açúcar”. Domingos Fernandes Calabar, jovem, valente, “primeiro herói brasileiro” (nasceu

A ORELHA MORDIDA

RIO – “Na hora do casamento, num incidente que daria o tom dos quarenta anos seguintes, dona Carlota deu uma mordida violenta na orelha de Dom João. No cerne dos problemas da família real portuguesa, estava um casamento tão desastroso que, em alguns momentos, suas consequências transbordariam para o domínio publico. Dona Carlota (Joaquina, infanta espanhola, filha do príncipe das Astúrias, futuro rei Carlos IV) fora convocada para desposar Dom

ERREI DE COREIA

RIO – O Partido Comunista e a União da Juventude Comunista, ilegais, eram drasticamente reprimidos pela policia. Para atuarem politicamente, lançavam mão de atividades mais amplas ou disfarçadas. Naquele dia, numa Conferencia de Defesa da Juventude, discutíamos o Brasil e o mundo e instalávamos em Minas o “Movimento Mundial da Paz”. A guerra da Coréia dividia a opinião publica e estávamos indignados com a Coréia do Sul, capitalista e dependente

O QUE É A VERDADE

RIO – A Grécia é filha de Homero. Nasceu do ventre da Ilíada e da Odisséia. Sócrates, Platão, Aristóteles, germinaram a filosofia. Ésquilo, Sófocles, Eurípides, sangraram a tragédia. Mas foi a poesia de Homero que gerou e plasmou a alma eterna da Grécia. Roma foi de César, de Augusto, de Adriano. Mas sem a Eneida de Virgilio, as Odes de Horacio, as Metamorfoses de Ovídio, Roma teria sido um Império

BANQUEIRO DE DEUS E DO DIABO

RIO – O carrão preto, com motorista de libré, parava na porta da embaixada do Brasil em Roma, na mítica Piazza Navona. Descia um senhor baixo, 80 anos, terno escuro, colete cinza, camisa branca e gravata preta, bigodes à francesa e brilhantina no cabelo, um dos homens mais poderosos da Itália. Conde do Papa, ia buscar-me quando eu era adido cultural, para almoçar. Íamos aos mais discretos e refinados restaurantes

O BOSCO DA PUC

RIO – Às 20 horas de 13 de dezembro de 1968, em Recife, no auditório da Universidade Católica, o estudante de Direito Bosco Barreto (João Bosco Braga Barreto), paraibano, orador da turma, começava o discurso de formatura fazendo comovida e entusiástica saudação ao “grande comandante revolucionário Ernesto Che Guevara”, que morrera um ano antes. Muito azar. Naquele exato momento, em todas a rádios e TVs, Costa e Silva apavorava o

A METRALHADORA DO PROFESSOR

RIO – Gilberto Amado, gênio da raça, foi embaixador do Brasil no Chile. Houve uma crise diplomática, ele voltou, ficou no Rio em disponibilidade. O ministro do Exterior, Macedo Soares, não o indicava para novo posto.Gilberto Amado perdeu a paciência, avisou: – Qualquer dia desses, entro no Itamaraty com uma metralhadora embaixo do braço, vou ao gabinete do ministro e disparo: “tatatatatatatatatatá”: Macedo para um lado, Soares para o outro.

O ACM QUE NÃO FOI CONTADO

RIO – Em 1952, Antonio Carlos Magalhães, médico sem medicina, funcionário sem função da Assembleia Legislativa da Bahia (“redator de debates”) e repórter político do jornal “O Estado da Bahia” na Assembleia, ficou furioso com um discurso do líder do PSD criticando o ex interventor e líder da UDN no Estado, Juracy Magalhães, e gritou: – Cala a boca, idiota! Perdeu o emprego e ganhou a proteção de Juracy, amigo

A GÔNDOLA AFOGADA

RIO –No dia 3 de novembro de 1966, Veneza acordou debaixo dágua. Uma violenta “mareggiata” (ressaca com ventos fortes), vinda do Adriático, caiu sobre a cidade, jogando em seu labirinto de canais uma quantidade de água dois metros acima do nível do mar. A água invadiu tudo, destruiu a rede eletrica, encheu os canais de lixo, ratos e pombos mortos. O desastre pôs dramaticamente a nu uma dolorosa realidade: a

FI-LO PORQUE QUI-LO

RIO – Em 1958, Juracy Magalhães, presidente da UDN, Carlos Lacerda, líder na Câmara, e Jânio Quadros, governador de São Paulo, prepararam a convenção nacional da UDN para fazer Herbert Levy o sucessor de Juracy. Magalhães Pinto chegou lá na véspera com José Aparecido, entrou na convenção, derrotou Herbert Levy. Jânio ficou Furioso. No dia seguinte, Magalhães chamou Aparecido e foram os dois fazer uma visita de cortesia a Jânio.