Publicações de Sebastião Nery

AS TRAGEDIAS DA NICARAGUA

  RIO – No muro velho, coberto de limo e furado de balas, a denúncia: “Os direitos humanos são três: ver, ouvir e calar”. Em outro muro, branco e limpo, a esperança: “Bolívar y Sandino, este es El Camino.” Nas vésperas de fugir, Somoza fez um apelo final ao embaixador norte-americano: “Não podemos entregar o país a nossos inimigos. Precisamos vencer nem que para isso seja preciso destruir a metade

O NÃO DE PETRONIO

  RIO – Nos primeiros dias depois do golpe militar de 1964, os governadores de todos os Estados (exceto Miguel Arraes e Seixas Dória, de Pernambuco e Sergipe, logo presos), vieram ao Rio para o beija-mão ao general Costa e Silva, chefe do tal “Comando Supremo da Revolução”. O encontro foi no Ministério da Guerra, no Rio. Magalhães Pinto, governador de Minas, ia apresentando um a um. Costa e Silva,

NA CROÁCIA DE TITO

RIO – Em julho de 1957, estava eu em Moscou, a imprensa internacional acordou com a manchete quente: “Tito e Bulganin encontram-se na fronteira da Rumânia”. Bulganin, um velhinho de barbicha branca e cara muito rosada, que poucos dias antes eu vira passeando só e calmamente nos jardins do Kremlin, era o então presidente da União Soviética. Aquele papo de fronteira significava o fim de dez anos de punhos cerrados

TRANSIBERIANA, O TREM DO SONHO

RIO – Há sempre um trem de ferro na infância de cada um. Mas sempre houve um na infância de todos: A Transiberiana. Cantada em prosa e verso, cenário de romances, história de filmes, mas sobretudo mistério e aventura nos contos infantis, a Transiberiana é um patrimônio da humanidade. E agora ela está aqui, ao meu lado, com seus trilhos nevados, sua respiração profunda, ofegante, suspirosa, seu cheiro de sonho,

BAIKAL, O LAGO SAGRADO

    RIO – Em 1905, a Rússia estava em guerra com o Japão. Era preciso atravessar o rio Angara, afluente do Enissei, que corta a Sibéria de sul a norte. Não havia ponte e as tropas deviam passar. Só havia um jeito: por cima do lago Baikal. E foi sobre o lago Baikal, gelado, que eles construíram uma estrada de ferro de dezenas de quilômetros e as tropas passaram.

LEMBRANÇA DE WALDIR

RIO – Nestes tempos de mediocridade triunfante, carência de vocações públicas, foi uma festa o reencontro com velhos amigos como Waldir Pires,Virgildásio Sena, Roberto Santos, Joacy Goes, Hélio Duque, João Carlos Teixeira Gomes (o poeta Joca), outros, relembrando uma parte da história política brasileira. Aos 91 anos, Waldir lúcido e ativo na defesa da democracia, ensinava: -“A política é a única forma de produzir mudanças na sociedade. O governo democrático

AVENTURA NO GELO ETERNO

  RIO – Bóris Kolesnikov, menino asiático, vivia com o pai, a mãe e três irmãs menores no sul da Sibéria, fronteira com a Mongólia e a China. Em 1946, morre o pai e ele decide fazer a grande aventura. Põe um saco às costas, ganha mundo, pega o rio Angara, depois o Enissei, e vem para o Polo Norte, que se estende da fronteira da Finlândia até o estreito

DENTRO DO TUBO DE NEVE

RIO – Na Recordação da Casa dos Mortos, de Dostoievski, editado pela José Olympio, o genial Goeldi comoveu gerações de leitores com suas ilustrações inesquecíveis: aquelas filas intermináveis de russos, humilhados, ofendidos e recurvados, enrolados em trapos negros, caminhando sobre a neve para a Sibéria, enxotados pela tirania dos tzares. Chego ao aeroporto de Domodedovo, um dos quatro de Moscou, para pegar o avião até Volgogrado, primeira etapa da minha

LEMBRAI-VOS DE 1964

RIO – Queiroz Junior, jornalista e escritor, conta que, no primeiro semestre de 1937, Flores da Cunha, governador do Rio Grande do Sul, veio ao Rio visitar Getulio. Os dois de charuto na boca: – Sabe, Flores, os tempos são outros, vou fazer as eleições e a dificuldade em que me encontro é a de escolher um homem verdadeiramente à altura do cargo, que possa continuar minha obra. – Quem

VIVER SEM MEDO

RIO – Velho, muito velho, terno sempre azul e cabeça toda branca, seu Manuel era uma figura querida e conhecida sobretudo em Teresópolis mas também em Petrópolis: revendedor há muitos anos da Loteria Federal. A sorte só chegava a Teresópolis e às vezes a Petrópolis pelas mãos já mirradas do seu Manuel. Depois que o presidente Geisel deixou o governo, seu Manuel arranjou mais um freguês permanente para seus bilhetes: