Publicações de Sebastião Nery

A SAUDE DOENTE

RIO – Um terço da população não é capaz de ler e compreender um texto mais elaborado. Segundo o Inaf (Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional), em pesquisa nacional, só 26% do povo brasileiro é plenamente alfabetizado. Mesmo entre os com curso superior, encontram dificuldades de entender nas suas mais diversas áreas do conhecimento, em setores profissionais fundamentais para o desenvolvimento. E o mais dramático é que o Brasil investe em

O BOM E OS MAUS LADRÕES

RIO – Do alto do púlpito da Igreja da Misericórdia, em Lisboa, em 1655, desafiando a Inquisição, o Padre Antonio Vieira, o mais valente dos pregadores, desafiou o poderoso Império Português e seus maus ladrões: – “Navegava Alexandre Magno em sua poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de

A PRINCESA ISABEL DE NOVO

  RIO – A Princesa Isabel era baixinha, feinha, mas de olhos azuis e nomes lindos : – “Isabel Cristina Leopoldina Augusta Michaela Gabriela Rafaela Gonzaga.” E no dia 13 de maio virou “A Redentora” porque assinou a Lei 3353, a Lei Aurea, da Emancipação dos Escravos”. O Brasil tornou-se o ultimo pais do continente americano a abolir a escravidão.     Era um avanço mas um brutal equivoco. Os negros ganharam

LULA NÃO QUERIA O PT

RIO – O PT não nasceu em São Bernardo. São Paulo. Nasceu em Criciúma, Santa Catarina. Eu vi. Estava lá. Em 1978, Walmor de Luca, combatente líder estudantil de esquerda, deputado federal catarinense de 1974 no levante eleitoral do MDB, realizou um Seminário Trabalhista nacional com os grupos políticos que se organizavam contra a ditadura lutando pela anistia e por eleições diretas. Lá estavam destacadas lideranças sindicais da oposição, como

OS 100 ANOS DE JÂNIO

  RIO – Chegamos cedo, dez da manhã. José Aparecido de Oliveira, o poeta Gerardo Mello Mourão, e eu. Era um belo domingo de sol em São Paulo, na rua Santo Amaro, 5. Jânio Quadros veio abrir o portão, feliz, sorridente. Cortava a grama com um carrinho anavalhado. Era 1970, a ditadura militar corria feroz. Todo mês, quando em São Paulo, Aparecido arrebanhava alguns amigos para almoçarmos com Jânio Quadros.

MARIA DO LIXO

RIO – Maria das Graças, menina magrinha, cara de rato e perna de andorinha, acordava com a madrugada e descia pulando a ladeira da favela, para catar lixo nas montanhas de entulho de uma vila com nome de santo, numa cidade com nome de céu. Maria das Graças, menina magrinha, cabelo de piolho, boca suja de farinha, voltava com a noite e subia cantando a ladeira da favela, trazendo caco

QUEM QUEBROU O BRASIL

RIO – Fim de ano, tempo de sabedorias. Comecemos então de longe. Platão, supersábio, na “Apologia de Sócrates”: – “O juiz não é nomeado para fazer favores com a justiça, mas para julgar segundo a lei”. (Como o irrepreensível juiz Sergio Mouro). E Dante, superpoeta : – “Per me si va nella cittá dolente, / Per me si va all’eterno dolore, / per me si va tra la perduta gente.

UM HOMEM DO CONGRESSO

RIO – Afonso Arinos, que passou a vida entre a Câmara e o Senado, disse que ele foi “o maior parlamentar brasileiro desde 1930”. Nestes tempos de Congresso apequenado, o pais devia ter celebrado com mais calor o centenário de Tarsílo Vieira de Melo. Foi um homem do Legislativo por um  quarto de século. Em 1945, com 32 anos, já se elegia para a Assembleia Constituinte. Em 1947, secretario de

O URUBU DA BOLÍVIA

RIO – O inesquecível senador Vitorino Freire, do Maranhão, foi à Bolívia chefiando a delegação do Senado que discutiria os Acordos de Roboré (petróleo). Ia ficar oito dias. Dois dias depois, voltou. Perguntaram: – Senador, já terminamos as negociações? – Não. Mas vou lá ficar num lugar que tem 4.800 metros de altura e onde urubu tem dispneia? Os desastres são desígnios do infinito. É preciso recebê-los, aceitá-los e absorve-los.

O IMPERADOR DE CUBA

RIO – Em 1952 Gaia Gomes era diretor artístico da Rádio América de São Paulo. O saudoso David Raw trabalhava com ele. Uma tarde, entrou lá um rapaz de cabelos negros, olhos grandes, esbugalhados, bigode ralo e barbicha fina. Argentino, trazia para Gaia uma carta de apresentação de Alberto Castilho, médico e cantor de tango em Buenos Aires. Não queria emprego. Também era médico, estava precisando de uma passagem para