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A PATA MANCA

RIO – Palácio das Laranjeiras, Rio, meia-noite de 31 de março de 1964. De Minas continuavam chegando as notícias das tropas do general Mourão Filho para derrubar o presidente João Goulart. Cercado de ministros e amigos, Jango dava telefonemas, conferenciava com militares e civis. E o nervosismo, de minuto a minuto, ia tomando conta do palácio. De repente, o indefectível general Assis Brasil, chefe da Casa Militar, que até há

OS LÁBIOS DE DILMA

RIO – Padre Godinho, doutor em teologia em Roma, uma catedral de cultura, deputado federal da UDN e do MDB de São Paulo, imitava perfeitamente as vozes alheias. Uma noite, toca o telefone no apartamento do Padre Nobre (MDB de Minas) em Brasília, amigo do Padre Godinho: – É o senhor Padre Nobre? Padre Nobre, aqui é dom José Newton, arcebispo. Soube que o senhor está na Comissão de Finanças

QUEM QUEBROU A PETROBRAS

SALVADOR–José de Almeida Alcântara, alto, cabeleira branca exposta ao vento, talentoso, audacioso, coletor federal,prefeito, deputado, era um terror para seus adversários na política de Itabuna, sul da Bahia. Em 1960 apoiou Jânio Quadros, da UDN. Teixeira Lott, candidato do PSD e PTB, foi a Conquista com uma grande caravana. Tão grande que o palanque não aguentou, desabou, quase quebrou a perna do velho marechal que ficou impedido de seguir para

LIÇÕES DO VELHO QUARTEL

  SALVADOR – De repente, noite alta, lá dos fundos do quartel escuro e imundo uma voz desesperada começou a gritar, urrar: – “Ai, meu São Gonçalo! Me salve, meu padroeiro! Eles estão me matando”. Um tombo surdo, sons pesados como patadas de elefante em filme indiano, gargalhadas histéricas e palavrões contínuos ecoavam no silencio úmido do quartel e não se ouvia mais a voz lancinante do devoto de São

O MINISTRO DE PATOS

  RIO – João Grande, lá na Paraíba, era um tropeiro muito alto e muito forte, de mãos enormes, pernas arqueadas e botas cravadas de ferro. Levou uma tropa para Patos, cidade vizinha, depois sentou-se no bar, pediu uma cerveja e ficou ali olhando a praça e o povo. Percebeu que, na calçada em frente, as pessoas iam andando e, de repente, quando chegavam diante de uma casa, desciam da

A ANDORINHA SUIÇA

RIO – O nome dele é Jean Ziegler (80 anos). Professor de sociologia da Universidade de Genebra, na Suíça, em 1976 lançou o livro “A Suiça Acima de Qualquer Suspeita”. Foi um Deus nos acuda, Denunciava o poderoso, intocável e corrompido sistema bancário suíço. Começava a largada para uma batalha que se prolongaria por décadas. A repercussão do livro no mundo acadêmico, na Europa, nos Estados Unidos, mostrava a necessidade

APAGÃO DO GOVERNO

  RIO – Major Irineu de Princesa Isabel, na Paraíba, rico, pão duro e ateu, não dava um tostão para a igreja. A mulher pedia, o padre pedia, nada. Uma noite chegaram aflitos dois empregados: – Coronel, o açude está subindo. A água já está no respaldo. Major Irineu começou a andar de um lado para outro. Água no respaldo era açude em perigo. E se o açude rompesse, a

OS CÃES DA BAHIA

  SALVADOR – Ninguém me contou. Eu vi. Estava lá. Às 19 horas de um sábado, em 1978, no “hall” do Hotel Praia-Mar, em Salvador, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Roberto Saturnino e Freitas Nobre receberam a visita  da direção do MDB da Bahia com a notícia nervosa: – A Polícia Militar cercou a praça do Campo Grande e comunicou oficialmente ao MDB que não vai permitir a reunião para lançamento

HISTORIAS PERNAMBUCANAS

  RECIFE – Vim a Recife quase com Mauricio de Nassau. Em 1954, já lá se vão 60 anos, estava eu por aqui ajudando a organizar nossas tropas da esquerda para o congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes). E nunca mais passei um ano sem voltar e sem gostar. Pernambuco e política são sinônimos. Esta a sua principal lição. JULIÃO Francisco Julião me roubou a China. Acabado o Festival

O MORO ITALIANO

  RIO – O carrão preto, motorista de libré, parava na porta da embaixada do Brasil em Roma, na Piazza Navona, em 1991. Descia um senhor baixo, 80 anos, terno escuro, colete cinza, camisa branca e gravata.  Um dos homens mais poderosos da Itália, conde do Papa, banqueiro de Deus, ia buscar-me para almoçar, a mim, pobre marquês, Adido Cultural.Íamos aos mais discretos e charmosos restaurantes de Roma, com os