Colunas

DENTRO DO TUBO DE NEVE

RIO – Na Recordação da Casa dos Mortos, de Dostoievski, editado pela José Olympio, o genial Goeldi comoveu gerações de leitores com suas ilustrações inesquecíveis: aquelas filas intermináveis de russos, humilhados, ofendidos e recurvados, enrolados em trapos negros, caminhando sobre a neve para a Sibéria, enxotados pela tirania dos tzares. Chego ao aeroporto de Domodedovo, um dos quatro de Moscou, para pegar o avião até Volgogrado, primeira etapa da minha

LEMBRAI-VOS DE 1964

RIO – Queiroz Junior, jornalista e escritor, conta que, no primeiro semestre de 1937, Flores da Cunha, governador do Rio Grande do Sul, veio ao Rio visitar Getulio. Os dois de charuto na boca: – Sabe, Flores, os tempos são outros, vou fazer as eleições e a dificuldade em que me encontro é a de escolher um homem verdadeiramente à altura do cargo, que possa continuar minha obra. – Quem

VIVER SEM MEDO

RIO – Velho, muito velho, terno sempre azul e cabeça toda branca, seu Manuel era uma figura querida e conhecida sobretudo em Teresópolis mas também em Petrópolis: revendedor há muitos anos da Loteria Federal. A sorte só chegava a Teresópolis e às vezes a Petrópolis pelas mãos já mirradas do seu Manuel. Depois que o presidente Geisel deixou o governo, seu Manuel arranjou mais um freguês permanente para seus bilhetes:

NO SILENCIO DA NOITE

RIO – De repente, no silencio da noite, como na canção de Peninha cantada por Caetano, voando sobre o Atlântico, já próximo de Pernambuco, ele acordou com a voz do comandante, falando em espanhol: – Atenção, por favor, senhores passageiros. Os fortes ventos que estamos enfrentando nos obrigam a fazer uma escala técnica em Recife, para recarregar o combustível. A demora no aeroporto será de aproximadamente 45 minutos. Obrigado. Ele

SAUDADES DO GROSSI

RIO – Estudante em Belo Horizonte, na década de 50, a “Republica da JUC”era santo abrigo: casarão cercado de jardins, frutas e flores, quase esquina com a Av. Amazonas, a 200 metros da Faculdade, dirigida pelo santo padre Viegas e liderada por João Bosco Cavalcanti Lana, da JUC de Direito. A Universidade quase toda representada ali: José Gerardo Grossi, o grande advogado e ministro, já tinha cara de advogado. Fabio

ERREI DE COREIA

RIO – Jamais esquecerei aquela terça-feira, 30 de dezembro de 1952. Tinha 20 anos e amanheci na primeira página de todos os jornais de Minas, execrado com foto e tudo. Havia dois anos apenas, ainda no seminário, de batina, piedoso, estudava filosofia e teologia, certo de que logo seria padre e um dia bispo, quiçá cardeal. Em um dos jornais, a manchete era minha, exclusiva, letras enormes: “Confirmam-se as acusações

UMA FAMILIA HEROICA

RIO – Agildo Barata, herói dos tenentes de 1930, dos capitães de 1935 e dos comunistas de 1945 (pai do querido Agildo Ribeiro, descendente do baiano Cipriano Barata, cirurgião, filósofo, deputado, mas sobretudo mestre do jornalismo de combate, cuja biografia o historiador Marco Morel escreveu) era o menor e mais valente dos prisioneiros de Fernando de Noronha, entre 1935 e 1945, na ditadura de Getúlio Vargas. Um guarda enorme, bruto

CHEGA DE PRIVILEGIOS

RIO – O professor Hélio Duque, com sua vasta experiência pública (jornalista, deputado do PMDB em vários mandatos, professor na universidade de Londrina, no Paraná) chama a atenção para o livro “Por que as Nações fracassam” de Daron Acemoglu e James Robinson, obra notável que devia ser lida pelos candidatos presidenciais. As causas do desenvolvimento e da pobreza no mundo são o centro do livro, demonstrando que quando as instituições

UM PEQUENO SUPREMO

RIO – Em 1964, o general Castelo Branco, em nome da nova ordem, pretendia cassar os ministros do Supremo, Victor Nunes Leal, Hermes Lima e Evandro Lins e Silva. Tinham sido indicados para o Supremo pelos ex-presidentes cassados Juscelino Kubistchek e João Goulart. O ministro Alvaro Ribeiro da Costa, presidente do Supremo, com o apoio de todo o colegiado, avisou a Castelo: havendo cassações fecharia o STF e entregaria as

QUANDO OS POLITICOS ERAM ESTADISTAS

RIO – Houve um tempo em que os líderes políticos se preocupavam em deixar lições e não fortunas. Esta história de Ulysses Guimarães e seu “exército” em Salvador, na Bahia, em 1978, é um exemplo de como se pode fazer política sem pensar sobretudo em dinheiro. Ninguém me contou. Eu vi. Estava lá. Às 19 horas de um sábado, em 1978, no “hall” do Hotel Praia-Mar, em Salvador, Ulysses Guimarães,