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OS 100 ANOS DE JÂNIO

  RIO – Chegamos cedo, dez da manhã. José Aparecido de Oliveira, o poeta Gerardo Mello Mourão, e eu. Era um belo domingo de sol em São Paulo, na rua Santo Amaro, 5. Jânio Quadros veio abrir o portão, feliz, sorridente. Cortava a grama com um carrinho anavalhado. Era 1970, a ditadura militar corria feroz. Todo mês, quando em São Paulo, Aparecido arrebanhava alguns amigos para almoçarmos com Jânio Quadros.

MARIA DO LIXO

RIO – Maria das Graças, menina magrinha, cara de rato e perna de andorinha, acordava com a madrugada e descia pulando a ladeira da favela, para catar lixo nas montanhas de entulho de uma vila com nome de santo, numa cidade com nome de céu. Maria das Graças, menina magrinha, cabelo de piolho, boca suja de farinha, voltava com a noite e subia cantando a ladeira da favela, trazendo caco

QUEM QUEBROU O BRASIL

RIO – Fim de ano, tempo de sabedorias. Comecemos então de longe. Platão, supersábio, na “Apologia de Sócrates”: – “O juiz não é nomeado para fazer favores com a justiça, mas para julgar segundo a lei”. (Como o irrepreensível juiz Sergio Mouro). E Dante, superpoeta : – “Per me si va nella cittá dolente, / Per me si va all’eterno dolore, / per me si va tra la perduta gente.

UM HOMEM DO CONGRESSO

RIO – Afonso Arinos, que passou a vida entre a Câmara e o Senado, disse que ele foi “o maior parlamentar brasileiro desde 1930”. Nestes tempos de Congresso apequenado, o pais devia ter celebrado com mais calor o centenário de Tarsílo Vieira de Melo. Foi um homem do Legislativo por um  quarto de século. Em 1945, com 32 anos, já se elegia para a Assembleia Constituinte. Em 1947, secretario de

O URUBU DA BOLÍVIA

RIO – O inesquecível senador Vitorino Freire, do Maranhão, foi à Bolívia chefiando a delegação do Senado que discutiria os Acordos de Roboré (petróleo). Ia ficar oito dias. Dois dias depois, voltou. Perguntaram: – Senador, já terminamos as negociações? – Não. Mas vou lá ficar num lugar que tem 4.800 metros de altura e onde urubu tem dispneia? Os desastres são desígnios do infinito. É preciso recebê-los, aceitá-los e absorve-los.

O IMPERADOR DE CUBA

RIO – Em 1952 Gaia Gomes era diretor artístico da Rádio América de São Paulo. O saudoso David Raw trabalhava com ele. Uma tarde, entrou lá um rapaz de cabelos negros, olhos grandes, esbugalhados, bigode ralo e barbicha fina. Argentino, trazia para Gaia uma carta de apresentação de Alberto Castilho, médico e cantor de tango em Buenos Aires. Não queria emprego. Também era médico, estava precisando de uma passagem para

AS DUAS MAFIAS

RIO – Ninguém me contou. Eu vi. Durante dois anos, em 1990 e 1991, como Adido Cultural, acompanhei dia a dia, em Roma e na Sicilia, a guerra da Máfia contra a Justiça italiana que comandou a Operação “Mani Puliti” (Mãos Limpas”). A poderosa e assassina Máfia, com séculos de organização e crimes, totalmente entranhada na sociedade italiana, a começar por setores da Igreja Católica e dos partidos políticos –

OS SAPOS NA LAGOA

RIO –Na lagoa da fábula,os sapos pediam um rei. No sufoco da crise, os americanos pediam também um líder. Cinquenta e seis anos atrás, em 1960, como contei aqui na semana passada, vi os Estados Unidos na campanha eleitoral. Eisenhower, velhinho e exausto, Presidente. Vice-presidente e mafioso, e candidato ‘a sucessão, Nixon, imbatível. Contra ele, um jovem senador católico, aristocrata, milionário, cabelo na testa e cara de meninão bem comportado:

KENNEDY IA PERDER

RIO – Naquele outubro de 1960, terminado o longo e monumental Congresso Internacional de Municípios em San Diego, na Califórnia, que durara duas semanas, um grupo de jornalistas baianos alugou um carro e saímos até São Francisco. Eu tinha ficado amigo do presidente do Conselho Municipal de Los Angeles, jornalista como eu, que me convidou para hospede de sua cidade por uma semana e conhecer além do que mostrava o

UM PAIS ISOLADO

SÃO PAULO – Em 1953, Getúlio Vargas era presidente da República. Jânio Quadros prefeito de São Paulo, Carvalho Pinto secretário da Fazenda de São Paulo, Coriolano Góes diretor geral da Cexim (Carteira de Exportação e Importação do Banco do Brasil). Uma tarde, aparecem no gabinete do diretor da Cexim, no Rio, Jânio Quadros e Carvalho Pinto. Precisavam de uma audiência urgente para uma licença especial do governo federal para importar