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	<title>Sebastião Nery</title>
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	<description>Jornalista e principal autor sobre o Folclore Político brasileiro.</description>
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		<title>PRIMEIRO MILAGRE DE BRASILIA</title>
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		<pubDate>Sun, 10 May 2020 17:43:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Sebastião Nery]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[RIO &#8211; “Três dias antes de morrer, Juscelino viera de sua fazendinha em Luziânia e pernoitara no apartamento do primo Carlos Murilo, em Brasília. Estava triste e deprimido por tantas]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>RIO &#8211; “Três dias antes de morrer, Juscelino viera de sua fazendinha em Luziânia e pernoitara no apartamento do primo Carlos Murilo, em Brasília. Estava triste e deprimido por tantas injustiças e perseguições, e fez a esse seu primo e meu xará a seguinte confissão que, autorizado por ele, agora, pela primeira vez, vou revelar:</p>
<p>&#8211; “Meu tempo, aqui na terra, está acabado. Tenho o quê, de vida? Mais dois, três ou cinco anos? O que eu mais quero agora é morrer. Não tenho mais idade para esperar. Meu único desejo era ver o Brasil retornar à normalidade democrática. Mas isso vai demorar muito e eu quero ir embora”.</p>
<p>Estava sem dinheiro e tomou 10 mil cruzeiros emprestados. Tendo Ulysses Guimarães e Franco Montoro como companheiros de voo, viajou para São Paulo e desceu em Guarulhos, porque o aeroporto de Congonhas estava fechado. Ficou hospedado na Casa da Manchete, em São Paulo”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“No dia seguinte, JK despediu-se de Adolfo Bloch, que depois revelava:</p>
<p>&#8211; “Ele deu-me um abraço tão forte e tão prolongado que parecia estar adivinhando ser aquele o nosso ultimo encontro. E chegou a mostrar-me o bilhete da Vasp, como prova da sua viagem, naquela noitinha, para Brasília”.</p>
<p>E morreu dormindo. Mas, desde a véspera, havia telefonado para seu fiel motorista, Geraldo Ribeiro, pedindo-lhe que fosse a São Paulo busca-lo de carro, e marcando um encontro no posto de gasolina, quilometro 2 da Dutra.</p>
<p>Pergunta-se hoje: por que Juscelino estava despistando e escondendo a sua real intenção de não ir para Brasília e sim de retornar ao Rio? Não queria que dona Sarah soubesse? Seria algum encontro amoroso?</p>
<p>E era”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Esta é uma das muitas, numerosas histórias contadas pelo veterano jornalista e acadêmico Murilo Melo Filho (nasceu em Natal, com a revolução de 30), com mais de meio século de redações, em seu livro, “Tempo Diferente” ,primorosa edição da Topbooks, sobre 20 personalidades da política, da literatura e do jornalismo brasileiro:</p>
<p>&#8211; “Aqui estão contadas historias reais e verazes, acontecidas com tantos homens importantes no universo literário e político do país, que viveram num tempo diferente”: Getúlio, JK, Jânio, Café Filho, Lacerda, Chateaubriand, Tristão de Athayde, Augusto Frederico Schmidt, Carlos Drummond de Andrade, Celso Furtado, Evandro Lins, Austregésilo de Athayde, Guimarães Rosa, Jorge Amado, José Lins do rego, Rachel de Queiroz, Raimundo Faoro, Roberto Marinho, Carlos Castello Branco, Otto Lara Rezende.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&#8211; “Eu era então (em 1956) chefe da seção política da “Tribuna da Imprensa”, jornal de oposição, dirigido por Carlos Lacerda, que movia feroz campanha contra JK. Apesar disso, ele sempre me distinguiu com especial atenção e, na sua segunda viagem a Brasília, me convidou para acompanhá-lo.</p>
<p>Saímos do Rio num Convair da Aerovias-Brasil e aterrissamos numa pista improvisada, perto do Catetinho. Às quatro horas da madrugada do dia 2 de outubro, ainda noite escura, JK já estava de paletó esporte, camisa de gola role, chapéu de aba larga, botinas e um rebenque, batendo à porta de nossos quartos, e convidando-nos para irmos com ele visitar as futuras obras. Brasília era um imenso descampado:</p>
<p>&#8211; Aqui será o Senado, ao lado da Câmara, mais adiante os Ministérios. No outro lado, o Supremo e o Palácio do Planalto, onde irei despachar”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&#8211; “Naquela nossa primeira noite em Brasília, após um dia de calor escaldante, os engenheiros estavam na varanda do Catetinho, em torno de uma garrafa de uísque, que era bebido ao natural, isto é, quente, porque em Brasília não havia ainda energia elétrica e, portanto, não havia gelo, que era artigo de luxo. Juscelino, presente, comentou:</p>
<p>&#8211; Vocês sabem que eu não gosto de uísque. Mas que uma pedrinha de gelo, aí nos copos, seria muito bom, seria.</p>
<p>Nem bem ele acabou de pronunciar essas palavras, o céu se enfarruscou e uma chuva de granizo despencou sobre aquele Planalto, levando os boêmios candangos a aparar as pedras, jogar nos copos e tomar uísque com gelo”.</p>
<p>Era o primeiro milagre de Brasília.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>E este bilhete de Adolfo Bloch a Carlos Murilo, já na “Manchete” em Brasília:</p>
<p>&#8211; “Carlos Murilo, ai vai esta lancha para você fazer relações públicas no lago de Brasília. Não faça economia em relações publicas. Nós, os judeus, perdemos o Cristo por falta de relações públicas. E fizemos um mau negócio, porque um homem como aquele não se perde”.</p>
<p><a href="mailto:nerysebastiao@gmail.com">nerysebastiao@gmail.com</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>QUANDO SALVADOR ERA &#8216;A BAHIA&#8217;</title>
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		<pubDate>Sat, 02 May 2020 16:11:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Sebastião Nery]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[RIO &#8211; Em 1948 Salvador não existia. Era “a Bahia”. O interior inteiro, quando ia para a capital, dizia que estava indo para “a Bahia”. E “a Bahia” foi minha]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>RIO &#8211; Em 1948 Salvador não existia. Era “a Bahia”. O interior inteiro, quando ia para a capital, dizia que estava indo para “a Bahia”. E “a Bahia” foi minha primeira grande aventura externa. Saí de Jaguaquara para a Bahia.</p>
<p>E chegou o mar. Nunca tinha visto o mar. Sabia que era grande e ameaçador. E ia ter que tomar o “navio da Bahiana”, da Companhia Navegação Baiana, que fazia Salvador e os outros portos da baía de Todos os Santos. De repente, numa curva, vi ao longe aquela coisa azul, enorme, espichada, como um imenso animal deitado. Era o mar.</p>
<p>O coração disparou. O trem foi se aproximando, parou perto. Fui comer meu camarão com chuchu, mas de olho no belo animal azul.</p>
<p>O trem parava em São Roque, havia uma meia hora para o pequeno navio sair. Corríamos em disparada para as barracas das baianas do camarão com chuchu, a maior contribuição culinária dos africanos à cozinha brasileira. Maior do que a feijoada, porque a feijoada é complexa. Camarão com chuchu é simples, come-se com colher.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Entrei no navio, fui para a varanda, ele começou a balançar. Não muito, mas também não pouco. Todo navio balança. Não adianta propaganda. O homem jamais vai domar o animal azul.</p>
<p>Mas eu queria ver Salvador nascer de dentro do animal azul. À medida que o navio andava, um infinito cordão de perolas começou a brilhar lá ao longe, no começo miúdas, depois crescendo, aumentando, até que viraram luzes, as luzes de Salvador, da ponta da Barra até Itapagipe.</p>
<p>Visão magnífica, inesquecível, para quem, como eu, via pela primeira vez. Uma cidade saindo do ventre das águas, como um parto no céu.</p>
<p>Com minha malinha de seminarista pobre, que estava se mudando do Seminário de Amargosa, onde estudei quatro anos, para o grandioso e glorioso Seminário Central de Santa Tereza, hoje Museu de Arte Sacra, era uma aventura. Entrei no elevador Lacerda metade com medo metade encantado. E lá de cima, abertas as portas, o animal azul lá embaixo e a ilha de Itaparica piscando luzes como se fosse um presépio de Deus.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mas o seminário só começava no primeiro dia útil de fevereiro. E aquele fim de semana era Carnaval. De batina preta, chapéu preto, 15 anos, caí nos braços da enlouquecida rua Chile, com seus carros alegóricos e cordões de fantasias, mulheres lindas desfilando suas longas coxas mágicas.</p>
<p>Não havia outro caminho, era atravessar de ponta a ponta. E o povo surpreso com aquele padreco todo de preto, perdido no meio da folia. Meu roteiro era passar o fim de semana, sexta, sábado e domingo, em um pequeno hotel na rua Rui Barbosa, ao lado da Chile, e segunda-feira ir para o Santa Tereza. Até lá, noites inteiras na janela, vendo os carros desfilando, os blocos passando, homens e mulheres sambando e o povo cantando.</p>
<p>Diziam-me que Carnaval era coisa do Diabo. Não achei. Gostei muito.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Sair do Seminário para fazer qualquer coisa na rua era antes de tudo repetir o belo e voluptuoso caminho do primeiro dia: subir a ladeira de Santa Tereza, virar a Carlos Gomes à esquerda, atravessar a praça Castro Alves, passar toda a rua Chile, entrar na praça Municipal, seguir pela Misericórdia, chegar à praça da Sé e ao Terreiro de Jesus.</p>
<p>Em 1948 não era uma caminhada. Era um desfile. No fim da tarde, na rua Chile, os homens de um lado, ternos de linho branco, chapéu e gravata, lencinho branco no bolso do paletó. Do outro, as mulheres, elegantes, cheirosas, vestidos longos, chapéus largos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A Semana Santa, para o Cristo, era um sofrimento. Para nós seminaristas, uma festa. Quase todos os dias, às vezes de manhã, às vezes de tarde, íamos todos à monumental catedral, no Terreiro de Jesus. Do seminário até lá, uma estirada. Na Castro Alves, rua Chile, praça Municipal, Misericórdia, Praça da Sé, os engraçadinhos se divertiam:</p>
<p>&#8211; Formigão! Formigão!</p>
<p>Não podíamos responder nada. Nas cerimonias, pomposos sermões barrocos de Dom Augusto, cônego Curvelo, padre Gaspar Sadoc, padre Guerreiro, monsenhor Trabuco. E o coro do Seminário cantando solene.</p>
<p>Eu fazia parte do coro. Achava-me desentoado, pedia para sair, mas monsenhor Amílcar, de Feira de Santana, professor de musica, dizia que era só mudança de voz. Logo estaria cantando bem. Errou. Não aconteceu.</p>
<p>Mesmo assim, um dia me escalou para fazer um solo em canto gregoriano. Entrei lá pela frente, o Missal aberto, cantando a plenos pulmões.</p>
<p>A catedral era longa, o texto grande. Fui até o altar, deixei o Missal e minha carreira de cantor. E ainda ganhei os aplausos de monsenhor Amílcar. Desconfio que ele era meio surdo.</p>
<p><strong> <a href="mailto:nerysebastiao@gmail.com">nerysebastiao@gmail.com</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O LOBO DA ALSACIA</title>
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		<pubDate>Sat, 25 Apr 2020 17:52:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Sebastião Nery]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[RIO &#8211;   O major Sanches Osório, da Comissão Coordenadora do Movimento das Forças Armadas (MFA) e ministro da Comunicação Social do Governo Provisório do general Spínola, em 1974, em Portugal,]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>RIO &#8211;   O major Sanches Osório, da Comissão Coordenadora do Movimento das Forças Armadas (MFA) e ministro da Comunicação Social do Governo Provisório do general Spínola, em 1974, em Portugal, conta em seu livro “O Equivoco do 25 de Abril” que foi ao gabinete militar da Presidência, onde estavam os generais Galvão de Melo, Silvério Marques, Diogo Neto, Pereira de Melo, vários coronéis, tenentes coronéis e majores.</p>
<p>Convocaram o primeiro-ministro coronel Vasco Gonçalves, que entrou no gabinete e estendeu a mão ao general Galvão de Melo:</p>
<p>&#8211; Como está, meu general?</p>
<p>O general ficou imóvel.</p>
<p>&#8211; O meu general não me aperta a mão?</p>
<p>&#8211; Não, eu não falo a filhos da puta.</p>
<p>&#8211; O meu general é um estupor.</p>
<p>O general Diogo Neto interpôs-se entre os dois e disse a Gonçalves:</p>
<p>&#8211; Tu és uma vergonha, meu comunista ordinário, que queres levar o país para uma guerra civil. Se abres a boca, parto-te a cara.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O ministro Sanches Osório disse ao primeiro ministro:</p>
<p>&#8211; O governo incitou os partidos, o que é desonesto.</p>
<p>&#8211; Isto é uma calúnia. O senhor está a insultar-me.</p>
<p>&#8211; Não estou. São os fatos tais como se passaram.</p>
<p>O general Diogo Neto virou-se para o primeiro-ministro:</p>
<p>&#8211; És um merda.</p>
<p>O general Silvério Marques acrescentou: &#8211; Olha-me de frente. Tenho quatro estrelas, mas só duas são da Revolução. Deixo-as aqui, atiro-as à tua cara. Tu vais dar ordem ao teu partido, ao PC, para acabar com a rebelião.</p>
<p>Chegou o Presidente, general Spínola, que ainda viu parte da cena. Era no Palácio de Belém, em 27 de setembro de 1974.</p>
<p>Portugal estava vivendo a metáfora do cão da Alsácia. O menino tinha um cão. Um lindo lobo da Alsácia. A mãe não gostava do cão. O pai gostava. O pai estava em casa, o cão ficava solto, alegre, guardando o jardim. E o menino feliz. O pai viajava, a mãe prendia o cão. O cão ficava amarrado, triste, dormindo no seu canto. O menino, infeliz. Quando o pai voltava, soltava o cão. O cão saia desesperado de seu canto, corria para o jardim e comia todos os cravos dos canteiros. De raiva.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O menino e o cão desta história eram portugueses. Os cravos desta história eram portugueses. Esta era uma história portuguesa. Eu a ouvi de amigos em Lisboa, numa noite de amargas lembranças antifascistas. E nunca mais consegui pensar em Portugal sem lembrar o lobo da Alsácia.</p>
<p>Portugal passou cinquenta anos preso, amarrado, triste, dormindo no seu canto. Infeliz. De repente, soltaram-no. Saiu desesperado para o jardim da liberdade. O perigo é que passasse a comer os canteiros dos cravos vermelhos. De ódio. Foram três gerações espezinhadas, mutiladas. O 25 de Abril de 1974 foi a revolução francesa deles, com 200 anos de atraso, em nome da liberdade, da igualdade, da fraternidade. Foi um Maio de 68 que deu certo. Jovem, explosivo, incontido, anárquico. Quase desesperado.</p>
<p>Portugal foi salvo, literalmente, pela Constituinte de 75. O Partido Socialista Português, do rotundo estadista Mario Soares, ganhou brilhantemente as eleições, construiu um governo democrático de respeitabilidade internacional e deu a paz a Portugal.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Da janela do hotel Fênix em Lisboa, eu via o Marques de Pombal, elegante e orgulhoso, a cabeleira encaracolada, o olhar aberto, soberbamente de pé no meio da praça, contemplando em pedra a cidade-monumento que ressuscitou da poeira do terremoto. No fim, perdeu a guerra contra os jesuítas. Portugal tinha continuado um país de jesuítas. O país das palavras, das fórmulas, tocando nas fórmulas e nas palavras para não tocar nas coisas.</p>
<p>Você ia a Trás-os-Montes e encontrava aldeias medievais. Entraram séculos, saíram séculos, e Portugal pouco avançara do sistema feudal. Descobriu mundos, pulou oceanos e inventou um jesuitismo só dele, que muito explica o antes e o depois do 25 de Abril: o capitalismo escritural.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Era tudo papel, letra, número. Tudo escrituração. Fábricas feitas sem um tostão. Na escrita. Negócios de bilhões feitos sem um tostão. Na escrita. Setenta por cento da economia nacional eram controlados por sete grupos. Na escrita. Daí terem também descoberto, eles, os banqueiros jesuítas, o que nem Hitler, nem Mussolini jamais sonharam: o fascismo do crédito.</p>
<p>Se o crédito nascia, vivia e morria na escrita, o crédito era só deles. Como capitalismo é dinheiro, e portanto crédito, o satânico silogismo estava amarrado: deles eram a economia, o governo, o Estado, o país.</p>
<p>Nós, netos de Portugal, como eu, fiquemos tranquilos. Portugal saiu dessa crise, como saiu em 1975. E com a mesma arma: a Democracia.</p>
<p><strong> <a href="mailto:nerysebastiao@gmail.com">nerysebastiao@gmail.com</a></strong></p>
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		<title>BRASILIA</title>
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		<pubDate>Sat, 18 Apr 2020 17:44:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Sebastião Nery]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>

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		<description><![CDATA[RIO – No dia 18 de abril de 1956, um ano depois do comício de Jataí, em Goiás, em que prometeu fazer Brasília e transferir a capital para o centro]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>RIO – No dia 18 de abril de 1956, um ano depois do comício de Jataí, em Goiás, em que prometeu fazer Brasília e transferir a capital para o centro do país, Juscelino, presidente, ia para Manaus com mais de 70 pessoas em dois aviões. Estavam o presidente, o marechal Lott ministro da Guerra, e outros ministros. Ele anunciou que ia descer em Goiânia para assinar a mensagem ao Congresso propondo a construção da capital.</p>
<p>No aeroporto, o governador Juca Ludovico e uma multidão. O avião não conseguiu descer. Rodou uma hora e não desceu.Contou nas memórias:</p>
<p>-“De repente apareceu uma nuvem branca,densa,com cara de ameaça”.</p>
<p>Desceram em Anápolis, ali perto. A única coisa aberta era um botequim. E às 4h30 da madrugada, no botequim, presentes 25 pessoas, Juscelino assinou a mensagem propondo a criação de Brasília.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Diz-se por aí, inclusive na TV Senado, que a aprovação foi unânime. Nada disso. Uma pauleira. De 5 de abril a 16 de setembro de 56 &#8211; cinco meses &#8211; a imprensa do Rio fez uma campanha brutal contra. O “Globo”, o “Correio da Manhã”, o “Diário de Notícias”, até o “Jornal do Brasil”, que a apoiou na constituinte de 1891, e o “Estado de S. Paulo”, combateram muito. E a Light, o “polvo canadense”, financiando a campanha.</p>
<p>A votação no Congresso foi dura. Nas comissões da Câmara, nunca houve mais de três votos de diferença. No plenário, quem desempatou a favor de Brasília foi o PSP de Ademar de Barros, graças ao trabalho de seu líder,o bravo e universal deputado Neiva Moreira, PDT do Maranhão.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Aprovada a construção no Congresso em 19 de setembro de 56, JK não perdeu tempo. No dia 2 de outubro, encheu dois aviões da FAB com Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Israel Pinheiro, o ministro da Guerra marechal Lott, o chefe da Casa Militar Nelson de Mello, o ministro de Obras Públicas Lúcio Meira, outros, desceram no aeroporto improvisado do marechal José Pessoa, onde hoje é a rodoferroviária.</p>
<p>E Juscelino fez o histórico discurso, escrito pelo poeta Augusto Frederico Schmidt, cujo começo está gravado em mármore na praça dos Três Poderes:</p>
<p>&#8211; “Deste Planalto Central, nesta solidão que em breve será o cérebro das decisões nacionais &#8230; Estamos aqui para construir a capital administrativa do país e o novo pólo de desenvolvimento do Planalto Central e do Centro-Oeste”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Perdi a cena. O “Jornal do Povo”, por pobreza, não em mandou. Mas, duas semanas depois, no dia 18, fui com outros jornalistas em um aviãozinho do governo de Minas. Juscelino começava a plantar Brasília em cima do nada. Apenas o cerrado verde sem fim e o horizonte infinito. O marechal Lott ficava de braços cruzados olhando o planalto imenso:</p>
<p>&#8211; Como é que vai ser, general?</p>
<p>&#8211; Não sei.</p>
<p>Juscelino, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Israel Pinheiro, sabiam.</p>
<p>Nos meses de outubro, novembro, dezembro, no mínimo cinqüenta vôos saíram do Rio ou de Belo Horizonte levando senadores, deputados, jornalistas, empresários. Queriam ver para crer. A maioria, para não crer.</p>
<p>Quando cheguei no dia 18, Niemeyer estava lá. Tinha ido no dia 2, cheio de medo. Não gosta de avião. Trabalhavam como mouros. À noite bebiam uísque numa cabana do Núcleo Bandeirantes, que depois virou o Hotel Rio de Janeiro, onde tantas vezes nos hospedávamos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Niemeyer e Juca Chaves, dono do lendário Juca’s Bar, no hotel Ambassador, no centro do Rio, do pai do saudoso Márcio Moreira Alves, fizeram um empréstimo de 500 contos no Banco Minas Gerais, com Maurício Chagas Bicalho, e construíram o Catetinho, para hospedar JK.</p>
<p>Em novembro, Juscelino voava com um grupo de jornalistas e falava sobre o lago Paranoá, a ser represado. Um jornalista mineiro não acreditou:</p>
<p>&#8211; Presidente,não há água para encher esse lago de que o senhor fala.</p>
<p>-Não tem importância. Se não houver água, encheremos com cuspe.</p>
<p>Alguns iam, se empolgavam. O governador da Bahia Antonio Balbino foi nos primeiros dias e fez uma frase manchete da “Última Hora”:</p>
<p>&#8211; “Brasília vai ser construída porque Juscelino quer e porque o povo brasileiro quer, apesar dos que não querem”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Outros não iam, não viam e não gostavam. O “Jornal do Brasil” dizia que não ia acontecer nada, que era “uma paranóia de Juscelino”. Roberto Campos deu entrevista ao “Globo” dizendo que era uma irresponsabilidade e que os americanos eram contra.</p>
<p>O resto a nação sabe. Brasília está aí e o Brasil Central, o Brasil do Norte-Centro-Oeste, conquistado e unificado por Brasília, é o responsável hoje pela produção e exportação agro pecuária nacional.</p>
<p>E Juscelino está lá, de pé, mão direita para o infinito, vendo a capital que há 60 anos nasceu de seu sonho e da utopia e grandeza de tantos.</p>
<p>A Historia é isso. Quem abre caminhos corre o risco das cobras, mas é aos pés dos que vão na frente que as borboletas se levantam.</p>
<p><strong>    <a href="mailto:nerysebastiao@gmail.com">nerysebastiao@gmail.com</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>UM PATRIOTA INJUSTIÇADO</title>
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		<pubDate>Sun, 16 Feb 2020 17:34:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Sebastião Nery]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>

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		<description><![CDATA[RIO – A mãe era índia da tribo Tupi, tinha nome bonito, Ângela Álvares, e “possuía fartos haveres”. O pai, ninguém nunca soube. Certamente um padre. “Caboclinho mestiço, mulato, não]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>RIO – A mãe era índia da tribo Tupi, tinha nome bonito, Ângela Álvares, e “possuía fartos haveres”. O pai, ninguém nunca soube. Certamente um padre. “Caboclinho mestiço, mulato, não tinha boa presença e possuía feições grosseiras”. Educado pelos jesuítas de Olinda, “dominava outras línguas. Culto, ambicioso, inteligente, prospero senhor de engenho, possuía três grandes engenhos cobertos de cana de açúcar”.</p>
<p>Domingos Fernandes Calabar, jovem, valente, “primeiro herói brasileiro” (nasceu em 1600 e morreu em 1635), entrou para a historia do Brasil pela porta dos fundos. Como traidor. Uma brutal mentira da historia oficial. Napoleão já dizia que a historia é a crônica dos vencedores.</p>
<p>Mas sua terra começou a lhe fazer justiça. O prefeito Carlos Eurico Leão e Lima oficializou o orgulho dos conterrâneos, na entrada da cidade :</p>
<p>&#8211; “Porto Calvo, terra de Calabar”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Os poetas sabiam. José Bonifácio, o Moço (1827-1886), tinha avisado:</p>
<p>&#8211; “Oh, não vendeu-se, não! / Ele era escravo / do jugo português. / Queria a vingança. / Abriu sua alma às ambições de um bravo”.</p>
<p>O também alagoano Jorge de Lima (1895-1953) confirmou :</p>
<p>&#8211; “Domingos Fernandes Calabar / eu te perdôo! / Tu não sabias / decerto o que fazias, / filho cafuz / de Sinhá Ângela do Arraial do Bom Jesus. / Combateu. Pelejou. Entre a batalha / viu essas vidas que no pó se somem. / Enrolou-se da Pátria na mortalha, / ergueu-se – inda era um homem”!</p>
<p>E, apesar da censura da ditadura, que vetou a peça “Calabar, O Elogio da Traição”, as musicas e versos de Chico Buarque e Rui Guerra continuam ai, belíssimos, imortais, em um dos mais fortes instantes da musica brasileira.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Subir os 20 quilômetros de rio que ligam o mar de Alagoas, em Porto de Pedras, a Porto Calvo, define a loucura das Nações, com a Holanda invadindo e Portugal e Espanha, que chegaram antes, defendendo um mundo, vasto mundo, que era só mato e índio, mas com ricas terras para cana de açúcar.</p>
<ol>
<li>– Em abril de 1624, “26 navios com 3.500 holandeses cercam e invadem Salvador, na Bahia, encontram apenas o governador Diogo de Mendonça Furtado e familiares, mas não foram alem dos muros da cidade, encurralados pelos guerrilheiros do arraial do Rio Vermelho, sob a chefia do bispo Dom Marcos Teixeira. O almirante Willekens voltou à Holanda, o coronel Van Dorth morreu vitima de emboscada, o comandante Schouten faleceu por excesso de bebida, substituído pelo irmão Willem, igualmente dado à embriaguez. Em abril de 1625, poderosa armada luso-espanhola reconquistou a Bahia. Em fevereiro de 1630, os holandeses voltaram com 67 navios e 7 mil homens, mas para Olinda e Recife. O governador Matias de Albuquerque não pôde resistir, construiu o Arraial do Bom Jesus, onde, recorrendo a guerrilhas, ficou até 1635 e se retirou para as Alagoas” (EB).</li>
</ol>
<p>&nbsp;</p>
<ol start="2">
<li>– Calabar durante anos foi um comandado de Matias Albuquerque. Quando o general espanhol Bagnuolo veio inesperadamente da Espanha para substituir Matias de Albuquerque, Calabar mandou uma carta para Matias de Albuquerque, voltou para Porto Calvo e se aliou aos holandeses “sem querer recompensa nem coisa alguma, mas para melhorar minha terra, que não tem liberdade de espécie alguma, e com a mesma sinceridade e o mesmo ardor com que me bati pela vossa bandeira, me baterei pela bandeira da liberdade do Brasil, que agora é a holandesa; tomo Deus por testemunha de que meu procedimento é o da minha consciência de verdadeiro patriota; como homem tenho o direito de derramar meu sangue pelo ideal que quiser escolher”.</li>
</ol>
<p>3.- Porto Calvo na época possuía até escolas e teatro. Os holandeses já haviam ocupado o povoado, subindo o rio por Porto de Pedras, com 25 navios e 4 mil homens. Em julho de 1635, chegaram os espanhóis e portugueses e, na batalha de Porto Calvo, derrotaram os holandeses, tomaram o forte do Alto da Força, enforcaram Calabar, esquartejaram-no, colocaram seus pedaços nas arvores das principais ruas do centro do povoado e foram embora. Os holandeses voltaram por Barra Grande, em Maragogi, recolheram os pedaços de Calabar, o enterraram na Igreja Nova, hoje Matriz de Nossa Senhora da Apresentação e obrigaram a população a lavar as ruas por onde ele passou”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mas não só Calabar orgulha esta histórica cidade. Aqui nasceu e lutou, ao lado dos portugueses e espanhóis, a primeira Anita Garibaldi, Clara Camarão, que aos 16 anos se casou com o guerrilheiro Felipe Camarão, nascido no Rio Grande do Norte, sempre montada no seu cavalo branco.</p>
<p>Também aqui nasceu Zumbi, o herói negro de Palmares, para onde fugiu à frente de 40 escravos negros vindos da Guiné. Como Calabar, criado por um padre, entre a casa paroquial e a sacristia. E acabou vivendo no quilombo com Maria, que se acredita filha de uma irmã do fundador da cidade, capitão Cristóvão, com o padre Gurgel, pároco de Porto Calvo.</p>
<p><strong><a href="mailto:nerysebastiao@gmail.com">nerysebastiao@gmail.com</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A ORELHA MORDIDA</title>
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		<pubDate>Sun, 09 Feb 2020 23:44:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Sebastião Nery]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[RIO – “Na hora do casamento, num incidente que daria o tom dos quarenta anos seguintes, dona Carlota deu uma mordida violenta na orelha de Dom João. No cerne dos]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>RIO – “Na hora do casamento, num incidente que daria o tom dos quarenta anos seguintes, dona Carlota deu uma mordida violenta na orelha de Dom João. No cerne dos problemas da família real portuguesa, estava um casamento tão desastroso que, em alguns momentos, suas consequências transbordariam para o domínio publico.</p>
<p>Dona Carlota (Joaquina, infanta espanhola, filha do príncipe das Astúrias, futuro rei Carlos IV) fora convocada para desposar Dom João (príncipe  de Portugal), então com 18 anos, em 1785, quando contava apenas 10 anos (o casamento só se consumou em 1790, quando ela fez 15 anos). Selada por razões de Estado, a união deu continuidade a uma tradição de casamentos entre as cortes espanhola e portuguesa. O casal teve nove filhos”</p>
<p>E foi assim, de uma mordida na orelha do noivo na hora do casamento,  da demência da rainha-mãe louca e fugindo de Napoleão que invadia Portugal, que o “príncipe do Brasil”, Dom João (a partir de 1815, Dom João VI), desembarcou na Praça XV, no Rio de Janeiro, em 8 de março de 1808, e o Rio se transformou na capital do Império Português.</p>
<p>Foi uma aventura para humilhar qualquer Manoel Carlos ou Gloria Perez. Essa historia “recheada de personagens extravagantes” é contada, dia a dia, “com notável maestria”, pelo jornalista australiano, radicado em Londres, Patrick Wilcken, que se baseou em documentos brasileiros e portugueses, além de pesquisas no ministério de relações exteriores britânico :</p>
<p>&#8211; “Empire Adrift &#8211; The Portuguese Court in Rio de Janeiro &#8211; 1808-1821” (“Império à Deriva – A Corte Portuguesa no Rio de Janeiro – 1808-1821”).</p>
<ol>
<li>– “A família real dividiu-se entre quatro navios. O “Alfonso de Albuquerque” trouxe dona Carlota e quatro de suas seis filhas. As duas filhas do meio viajaram no “Rainha de Portugal”, enquanto os membros inferiores do cortejo real – a tia e a cunhada idosas de Dom João, ficaram a bordo do “Príncipe do Brasil”. Na nau capitânea, a “Príncipe Real”, embarcaram Dom João, a Rainha Maria Iª, a Louca, e os herdeiros varões Pedro e Miguel”.</li>
<li>– “Dona Carlota era minúscula, baixa, menos de um metro e meio, de feições andaluzas morenas e usando um curioso turbante para cobrir a cabeça raspada. Dom João, um homem baixo e corpulento, de cabeça grande e braços e pernas troncudos. A família real passou um mês descansando em Salvador. Em 8 de março, desembarcaram no Rio. Durante um curto período, dom João e Dona Carlota dormiam em quartos situados no mesmo corredor, um em frente ao outro. Mas esse arranjo não durou muito. Os dois não tardaram a morar em extremos opostos da cidade, com os familiares divididos entre eles”.</li>
<li>– “O Rio era menor do que Salvador: 60 mil habitantes na chegada da família real. O vice-rei invocou uma lei impopular que dava à coroa o direito de confiscar casas particulares. Funcionários  percorriam a cidade, escolhendo arbitrariamente as residências adequadas e escrevendo a giz, em suas portas de entrada : “PR” (“Príncipe Regente”). O sinal indicava que os moradores deveriam desocupar prontamente as propriedades. Essas iniciais tornaram-se popularmente conhecidas pelos cariocas exasperados como “Ponha-se na Rua”.</li>
<li>– “Dom João saia com um cortejo de autoridades. Com pouco tempo, passou a cumprimentar muitos súditos pelo nome. Criou um sistema de concessão de honrarias, do qual nasceu a nobreza brasileira: fazendeiros, senhores de escravos e comerciantes ricos receberam títulos de marquês, conde, barão e cavaleiro, o que consolidou ainda mais a popularidade de Dom João.  O príncipe regente era venerado. Dona Carlota galopava pela zona rural. As excentricidades de dona Carlota viraram temas de mexerico na cidade: o habito pouco feminino de montar como um cavaleiro, com um rifle pendurado no ombro, suas expedições de caça pelas montanhas e o obvio afastamento do marido chocaram a sociedade colonial conservadora”.</li>
<li>– “Joaquim José de Azevedo, o funcionário da corte que havia supervisionado o embarque da família real, enriqueceu tanto no Brasil que acabou por se tornar o banqueiro da corte”. (E nasceu o Banco Central).</li>
</ol>
<p>O que Dom João VI fez, administrativa e politicamente, ficou na historia. Não foi um gordinho glutão e alienado, comedor de frangos. Foi um estadista.</p>
<p><strong>nerysebastiao@gmail.com</strong></p>
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		<title>ERREI DE COREIA</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Feb 2020 18:20:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Sebastião Nery]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[RIO &#8211; O Partido Comunista e a União da Juventude Comunista, ilegais, eram drasticamente reprimidos pela policia. Para atuarem politicamente, lançavam mão de atividades mais amplas ou disfarçadas. Naquele dia,]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>RIO &#8211; O Partido Comunista e a União da Juventude Comunista, ilegais, eram drasticamente reprimidos pela policia. Para atuarem politicamente, lançavam mão de atividades mais amplas ou disfarçadas. Naquele dia, numa Conferencia de Defesa da Juventude, discutíamos o Brasil e o mundo e instalávamos em Minas o “Movimento Mundial da Paz”.</p>
<p>A guerra da Coréia dividia a opinião publica e estávamos indignados com a Coréia do Sul, capitalista e dependente dos Estados Unidos, que havia criminosamente invadido a Coréia do Norte, socialista e aliada da União Soviética.</p>
<p>Muitos anos depois, em Roma, numa entrevista coletiva, perguntei a verdade a Gorbatchev e dele ouvi, perplexo, que a Coréia do Norte é que tinha invadido a Coréia do Sul e não como dizíamos na época.</p>
<p>Fui preso merecidamente. Errei de Coréia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quando a policia chegou à inauguração do “Movimento Mundial da Paz” em Minas, estávamos lá jovens estudantes e velhos lideres. Armando Ziller, venerando dirigente dos bancários e ex-deputado comunista. Sua bela filha Helia Ziller, estudante. Luis Bicalho nosso professor na Faculdade de Filosofia. Aluisio Ordones meu colega de Faculdade e vários outros.</p>
<p>Todos presos, socados em rádio patrulhas. Lembro-me bem da calma da Hélia que, empurrada aos tombos para dentro da radio patrulha, derrubada, levantou-se, sentou-se, abriu uma bolsa, tirou um pente e passou nos cabelos, alourados, lindos.</p>
<p>Depois de alguns tabefes, percebi que o magérrimo coronel Olimpio, da reserva do Exercito, havia desaparecido.Tinha sumido na hora. Dias depois, já solto, encontrei-o em outra reunião:</p>
<p>&#8211; O senhor é muito rápido. Foi o único que conseguiu fugir.</p>
<p>&#8211; Meu filho, não fugi. Um oficial do Exercito brasileiro não foge. Bate em retirada.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Saí da cadeia, fui ver o novo amor que nascera a meu lado, na sala de aula, na Faculdade, como um acendedor de sonhos, iluminando as manhãs. Era bela, a mais bela de todas, mas muito mais do que isso. Uma luz. Falava como quem acendia uma lâmpada. Sorriso lua, rosto sol. Nada mais havia se ela estava.</p>
<p>Naquela manhã, não foi à Faculdade. Cheguei à casa modesta , no bairro distante. Ela estava tensa no jardim:</p>
<p>&#8211; Que bom que você veio aqui. Não queria conversar lá na Escola. Passei todos esses dias imaginando como lhe diria. Agora sei. Não tenho forças para a sua generosidade. E não vou pedir que mude. Sei que vai ser sempre assim e sempre mais. Na hora em que for preciso alguém para sair na frente, você irá. Tem sido assim desde o principio do curso, quando começaram as lutas no Diretório e na Faculdade. Agora já não é só na Faculdade. É na rua. É na luta política. Acho lindo, gosto mais ainda de você por ser assim, mas sem mim. Sem eu estar a seu lado. Por favor, compreenda. Não tenho coragem para sua generosidade.</p>
<p>Era um segundo abismo que se abria embaixo de mim. E nada podia fazer. Outras tardes nos imaginamos na Bahia, o mar batendo naquela entrada de pedras tortas, naquele passeio de cimento gasto, naquele jardim com uma roseira seca. Agora só restava um adeus doído.</p>
<p>Subi a pequena ladeira da rua com a alma dilacerada. Entrei em um barzinho, pedi uma batida de limão, um papel, sentei e escrevi. Não era um poema. Era o naufrágio do amor.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://www.sebastiaonery.com">www.sebastiaonery.com</a>   <a href="mailto:nerysebastiao@gmail.com">nerysebastiao@gmail.com</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O QUE É A VERDADE</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Dec 2019 16:36:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Sebastião Nery]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[RIO &#8211; A Grécia é filha de Homero. Nasceu do ventre da Ilíada e da Odisséia. Sócrates, Platão, Aristóteles, germinaram a filosofia. Ésquilo, Sófocles, Eurípides, sangraram a tragédia. Mas foi]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>RIO &#8211; A Grécia é filha de Homero. Nasceu do ventre da Ilíada e da Odisséia. Sócrates, Platão, Aristóteles, germinaram a filosofia. Ésquilo, Sófocles, Eurípides, sangraram a tragédia. Mas foi a poesia de Homero que gerou e plasmou a alma eterna da Grécia.</p>
<p>Roma foi de César, de Augusto, de Adriano. Mas sem a Eneida de Virgilio, as Odes de Horacio, as Metamorfoses de Ovídio, Roma teria sido um Império mas não teria sido uma Civilização.</p>
<p>A Itália é Dante e o depois dele. A Inglaterra é Shakespeare e o sempre. Como a Alemanha é sobretudo Goethe, Portugal Camões.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por que? Porque a poesia é o Genesis. “In principio erat verbum”. No principio era a palavra. No inicio era a poesia. E “o poeta é um pequeno Deus”.</p>
<p>Platão sabia disso : &#8211; “O poeta é um ser alado, sagrado, todo leveza, e somente capaz de criar quando saturado de Deus”.</p>
<p>Shakespeare também: &#8211; “O olhar do poeta, girando em delírio, vai do céu para a terra, da terra para o céu. Quando a imaginação toma corpo, captura a essência das coisas”.</p>
<p>E Goethe: &#8211; “Poetas não podem calar-se. Quem vai confessar-se em prosa? Abrimo-nos como rosa, no calmo bosque das musas”.</p>
<p>E Victor Hugo: &#8211; “Um poeta é o mundo dentro de um homem”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Impalpável, intangível, só ela, a poesia, é a verdade. Etérea. A verdade alada de Platão, a verdade ensanguentada do Cristo.</p>
<p>Pontius Pilatus ganhou de Tiberius, imperador de Roma, o governo da Judeia e da Samaria, quando exilou Arquelau, filho de Herodes, o Grande, e irmão de Herodes, o antipático Antipas, que deu a Salomé o pescoço de João Batista.</p>
<p>Philo Judaeus e Josephus, historiadores judeus, contemporâneos de Pilatus, disseram que ele era “ríspido e intratável”. Mas não queria matar Jesus. Quando aquele homem de olhos mansos, coberto de sangue, chegou preso ao palácio, trazendo na cabeça a coroa sarcástica – “Jesus Nazarenus Rex Judeorum” – , Pilatos lhe perguntou quem ele era :</p>
<p>&#8211; “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.</p>
<p>O caminho Pilatos sabia o que era. A vida, também. Mas a verdade, não. Pilatos outra vez lhe perguntou:</p>
<p>&#8211; O que é a verdade?</p>
<p>Jesus não respondeu. E foi levado para morrer.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Beletristas medievais, monges e poetas, diziam que Jesus não respondeu porque a resposta já estava na pergunta, em latim:</p>
<p>&#8211; “Quid est veritas”? (O que é a verdade?).</p>
<p>Com as mesmas 14 letras da pergunta, escreve-se a resposta :</p>
<p>&#8211; “Est vir qui adest”. (É o homem que está aqui).</p>
<p>Nem a verdade disse o que é a verdade, porque indefinível.</p>
<p>Como a poesia. Ninguém a definirá. Sentida, vivida, sofrida ou gargalhada, mas indizível. Nasce e morre no mistério. Como as gaivotas, levita e mergulha. Aflora e submerge. É feita de luz e sombra, flor e cacto, carne e sangue. A poesia é o mágico encontro entre a beleza e a pedra, o sonho e a dor, a vida e a morte.</p>
<p>Na impossível busca da verdade, só a poesia é a verdade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um pequeno, belo, talvez anônimo poema traduz magnificamente o que vai pela alma dos homens em cada Natal, cada virar de Ano Novo, cada começo de novo ano.</p>
<p>Consta, embora jamais comprovado, que é de Che Guevara. No Natal de 1966, em Nancahuazu, na Bolívia, nas derradeiras trincheiras da inviável guerrilha, cercado de solidão e da certeza do sonho perdido, ele o teria escrito:</p>
<p>&#8211; “Cristo, te amo / não porque desceste de uma estrela /</p>
<p>mas porque me revelaste / que o homem tem lagrimas, angustias /</p>
<p>e chaves para abrir as portas fechadas da luz. / Tu me ensinaste que o homem é deus / um pobre deus crucificado como tu./ E aquele que está à tua direita no Gólgota / o bom ladrão / também é um deus”.</p>
<p><a href="mailto:nerysebastiao@gmail.com">nerysebastiao@gmail.com</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>BANQUEIRO DE DEUS E DO DIABO</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Dec 2019 16:29:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Sebastião Nery]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[RIO – O carrão preto, com motorista de libré, parava na porta da embaixada do Brasil em Roma, na mítica Piazza Navona. Descia um senhor baixo, 80 anos, terno escuro,]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>RIO – O carrão preto, com motorista de libré, parava na porta da embaixada do Brasil em Roma, na mítica Piazza Navona. Descia um senhor baixo, 80 anos, terno escuro, colete cinza, camisa branca e gravata preta, bigodes à francesa e brilhantina no cabelo, um dos homens mais poderosos da Itália. Conde do Papa, ia buscar-me quando eu era adido cultural, para almoçar.</p>
<p>Íamos aos mais discretos e refinados restaurantes de Roma, com os melhores vinhos da Itália. Às vezes, o almoço foi no palacete dele, na Via Archimede, no alto do Gianícolo, ou, em um domingo de sol, na sua casa na serra, em Grottaferrata. Simpático, Umberto Ortolani era uma figura ambígua, misteriosa. Mal falava, só perguntava. A cada duas frases, uma pergunta.</p>
<p>Dele sabia que era conde da Santa Sé, “Gentiluomo di Sua Santitá”, banqueiro do Vaticano. Eu o tinha conhecido em uma exposição no Masp, em São Paulo,apresentado pelo jornalista José Neumanne, do “Estado de S. Paulo”</p>
<p>O que ele queria de mim? Queria o Brasil. Queria que eu convencesse o embaixador Carlos Alberto Leite Barbosa a convencer o Itamaraty a lhe entregar um novo passaporte, pois tinha cidadania brasileira dada pela ditadura militar, e os dois que tinha, o italiano e o brasileiro, o governo italiano tomara ao descer em Roma, depois de vários anos asilado no Brasil.</p>
<p>Impossível. Quem tomou o passaporte foi o governo italiano. O Brasil nada tinha a fazer. Logo de começo lhe comuniquei a opinião do embaixador e do Itamaraty. Mas ele acreditava que, insistindo, talvez conseguisse, sobretudo depois daqueles irresistíveis Brunellos di Montalcino. Queria fugir de novo.</p>
<p>Levou-me a seu histórico escritório na Via Candotti, 9, sobre a bela loja Bulgari:</p>
<p>&#8211; Desta sala saíram sete primeiros-ministros, Andreotti, Craxi, todos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ortolani é uma historia exemplar do satânico poder dos banqueiros, mesmo quando, como ele, um banqueiro do Papa, vice-presidente do Banco Ambrosiano, do Vaticano. Um livro imperdível, “Poteri Forti” (“Fortes Poderes, o Escândalo do Banco Ambrosiano”, Editora Futuro Passato), do jornalista Ferruccio Pinotti, abriu as entranhas do poder de corrupção do sistema financeiro, de braços dados com governos, partidos, empresários, máfia, maçonaria, cardeais, grupos religiosos, Opus Dei, etc.</p>
<ol>
<li>– Em junho de 1982, foi encontrado estrangulado em Londres, embaixo da Blackfriars Bridge, a “Ponte dos Irmãos Negros”, o banqueiro italiano Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano, que acabava de quebrar e tinha como vice-presidente o cardeal Marcinkus e diretores o conde Ortolani e o chefe da P2 italiana (maçonaria), Licio Gelli.</li>
<li>– Gelli foi logo apontado como “mandante”. Nos dias seguintes, na Itália e na Inglaterra, apareceram assassinados vários outros ligados a Calvi (não é só na Santo André do PT paulista que testemunhas de crimes morrem em serie). E no meio da confusão, Ortolani, um dos cavaleiros do Apocalipse.</li>
<li>– Ortolani começou trabalhando com Bill Mazocco, agente da CIA na Itália depois da guerra, que “controlava a política e os sindicatos italianos”. Logo Ortolani criou uma Agencia de Imprensa, tornou-se um “traço de união” entre o Vaticano e a Maçonaria e diretor do poderoso “Corriere de la Sera”.</li>
<li>– Entrou para o Ambrosiano, um pequeno banco de padres que, tendo atrás o IOR (Instituto para as Obras da Religião), o banco oficial do Vaticano, dirigido pelo cardeal americano Marcinkus, logo fica poderoso e se instala em toda a América Latina: México, Nicarágua, Panamá, Venezuela, Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, de braços dados com as ditaduras civis e militares : Perón e o chefe de seu Esquadrão da Morte Lopes Rega e generais sulamericanos.</li>
<li>- Tornou-se intimo dos mais poderosos cardeais. Quando João XXIII morreu, ele reuniu em sua casa de campo, lá na bela Grotaferrata onde almocei, um punhado de cardeais com o cardeal Montini, que dali saiu candidato e virou Papa Paulo VI, que depois o fez conde da Santa Sé.</li>
<li>– Ortolani também criou no Uruguai seu banco: o Bafisud (Banco Financeiro Sul Americano) e se instalou em São Paulo, onde se ligou aos governos militares, ficou intimo dos Mesquita do “Estadão”, continuou atuando junto à CIA e ganhou cidadania brasileira, com passaporte e tudo.</li>
<li>- Estourado o Ambrosiano, assassinado o presidente Calvi, preso o Gelli da P2 e o cardeal Marcinkus fugido nos Estados Unidos, a Italia pediu ao Brasil a extradição de Ortolani, mas, em 25 de setembro de 84, o Supremo Tribunal negou. Tempos depois, voltou à Itália para defender-se.</li>
<li>-   A “Operação Mãos Limpas” apertou o cerco, ele decidiu sair mas era tarde. Não tinha os passaportes. Em abril de 1992, Ortolani foi condenado a 19 anos, Gelli a 18 e outros 20 de 5 a 15 anos. Em 1998, o Tribunal diminuiu as penas. Em 17 de janeiro de 2002, aos 90 anos, morreu em Roma meu amigo conde.</li>
</ol>
<p><a href="mailto:nerysebastiao@gmail.com">nerysebastiao@gmail.com</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O BOSCO DA PUC</title>
		<link>https://sebastiaonery.com/2019/12/o-bosco-da-puc/</link>
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		<pubDate>Sat, 07 Dec 2019 16:26:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Sebastião Nery]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[RIO – Às 20 horas de 13 de dezembro de 1968, em Recife, no auditório da Universidade Católica, o estudante de Direito Bosco Barreto (João Bosco Braga Barreto), paraibano, orador]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>RIO – Às 20 horas de 13 de dezembro de 1968, em Recife, no auditório da Universidade Católica, o estudante de Direito Bosco Barreto (João Bosco Braga Barreto), paraibano, orador da turma, começava o discurso de formatura fazendo comovida e entusiástica saudação ao “grande comandante revolucionário Ernesto Che Guevara”, que morrera um ano antes.</p>
<p>Muito azar. Naquele exato momento, em todas a rádios e TVs, Costa e Silva apavorava o pais, lançando o AI-5 (Ato Institucional nº 5), jogando a Nação no mais fundo porão da ditadura. De manhã cedo, o Exercito mandou buscar em casa “o Bosco da PUC”. Erraram de Bosco. Em vez do Bosco Barreto, o orador da turma de Direito, levaram o Bosco Tenório, também “Bosco da PUC”, aluno da PUC, jovem vereador recém-eleito de Recife.</p>
<p>No quartel, foi recebido pelo major Raimundo Sá Peixoto.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Desafiante, com o discurso na mão, o major lia uma frase e interrogava:</p>
<p>&#8211; Senhor Bosco, o senhor confirma este elogio desbragado a Che Guevara que o senhor fez ontem no seu discurso?</p>
<p>&#8211; Não confirmo não, major.</p>
<p>&#8211; Como não confirma? O senhor está louco? O senhor falou ontem à noite e hoje de manhã já não confirma? E este trecho aqui, o senhor confirma?</p>
<p>E o major Peixoto leu mais um longo pedaço do discurso e perguntou:</p>
<p>&#8211; E isso, confirma ou não confirma? Não sustenta o que disse ontem?</p>
<p>&#8211; Major, eu até concordo com o discurso que o senhor está lendo. Mas não confirmo nem sustento, porque não fui eu que disse isso. Quem falou foi o orador da formatura. Como é que eu podia ser orador de formatura, se não me formei e ainda sou estudante? Esse Bosco aí é outro Bosco, major.</p>
<p>O major quase esganou o Bosco numero 2. Em outubro de 1969, o Bosco Tenório, valente vereador do MDB de Recife, hoje advogado, foi cassado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O Bosco Barreto, formado, voltou para sua terra, Cajazeiras, na Paraíba. Advogado dos camponeses fugidos da seca e do povão das periferias, ganhou enorme popularidade. Em 1972, saiu candidato a prefeito pelo MDB, quase ganhou. Logo em seguida, organizou uma romaria a Juazeiro do Norte para agradecer os votos ao Padre Cícero. 30 mil romeiros atrás dele, todos a pé.</p>
<p>Em 1974, Bosco Barreto se elegeu deputado estadual pelo MDB, com</p>
<p>9.326 votos, quase todos em Cajazeiras. Mas havia alguém muito importante que não gostava nada dele, e que ele também detestava e se combatiam: era o bispo de Cajazeiras por 40 anos, dom Zacarias Rolim de Moura.</p>
<p>Culto, dedicado ao ensino, diretor de colégios e do seminário, criador da Faculdade de Filosofia, Dom Zacarias era um poço de conservadorismo e reacionarismo, critico de dom Helder Câmara e dom José Maria Pires, o dom Pelé arcebispo de João Pessoa, e inimigo da Teologia da Libertação.</p>
<p>De repente, em 2 de julho de 75, às 21 horas, durante a exibição do filme “Sublime Renuncia”, que contava a historia de um assalto a banco com bomba-relógio, uma bomba poderosa explodiu no cinema de Cajazeiras, abalando a cidade de 30 mil habitantes, matando duas pessoas, ferindo muitos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Escândalo nacional, em plena ditadura. A bomba explodiu exatamente ao lado da cadeira cativa do bispo, apaixonado por cinema, que escolhia os filmes em Recife e levava para lá. Naquela noite, por sorte, estava em Recife.</p>
<p>&#8211; “Atentado terrorista”, gritaram os jornais. O primeiro “suspeito” de organizar o atentado tinha que ser ele, o “subversivo” deputado Bosco Barreto.</p>
<p>Outros suspeitos foram a linha-dura militar, para desestabilizar a “abertura” do general Geisel, como mais tarde fizeram no Riocentro e na OAB, no Rio.</p>
<p>Dez anos depois, já morando em Brasília, como advogado do CNPq e suplente de senador, Bosco Braga tentou reabrir o caso, mas nada se apurou.</p>
<p>Essa historia está toda em um livro muito bem documentado sobre a política da Paraíba e do Nordeste (“Do Bico de Pena à Urna Eletrônica” &#8211; Editora Bagaço, Recife, 2006), de Francisco Cartaxo Rolim, paraibano de Cajazeiras, advogado, economista, escritor, secretario de Planejamento do Estado, chefe de gabinete da Sudene e parente de Dom Zacarias Rolim.</p>
<p><strong>          <a href="mailto:nerysebastiao@gmail.com">nerysebastiao@gmail.com</a></strong></p>
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